Você já sentiu que sua "missão" na vida é garantir que todos ao seu redor estejam bem, mesmo que isso custe o seu próprio esgotamento? No Jornal da Cultura de 06/03/2026, vimos que as mulheres brasileiras dedicam quase uma jornada de trabalho inteira a mais por semana apenas em cuidados domésticos. Mas por que essa conta nunca fecha para nós?
Na Clínica Ame-se,sob a autoria da Psicóloga Thauana Tavares, exploramos como a teoria de Valeska Zanello e a perspectiva de Carla Antloga explicam esse fenômeno e, mais importante, como podemos rompê-lo.
O que é o Dispositivo Amoroso?
Diferente dos homens, que são socializados no "dispositivo da eficácia" (valorizados pelo que fazem e conquistam), as mulheres são ensinadas a existir através do dispositivo amoroso. Isso significa que a identidade feminina é construída na doação: ser uma "boa" mulher é ser uma mulher que cuida, que serve e que antecipa as necessidades alheias.
A Armadilha da Subjetividade
Esse dispositivo cria uma armadilha mental:
Autoestima Relacional: Você só se sente valorizada se for "útil" para a família ou parceiro.
Silenciamento de Desejos: Para cuidar de todos, você aprende a não saber o que quer, apenas o que os outros precisam.
Culpa como Controle: Quando você tenta descansar ou delegar, a culpa aparece como um sinal de que você está "falhando" na sua essência feminina.
A Economia do Cuidado e o Sofrimento Ético-Político
O que o senso comum chama de "instinto materno" ou "capricho feminino", a ciência chama de Trabalho de Cuidado. Segundo Carla Antloga, a invisibilidade desse esforço gera um sofrimento ético-político: você trabalha exaustivamente, mas esse trabalho não é visto como tal, e sim como "obrigação" ou "amor".
Essa sobrecarga é o que leva ao esgotamento que muitas mulheres confundem com depressão ou ansiedade generalizada, quando, na verdade, é uma reação natural a uma estrutura injusta.
Estratégias Práticas para Romper o Ciclo
Para sair dessa engrenagem, precisamos de mais do que "dicas de relaxamento". Precisamos de estratégias de Habilidades Sociais e mudança de postura.
1. Transforme "Ajuda" em "Corresponsabilidade"
Pare de pedir "ajuda". Quem pede ajuda assume que a responsabilidade é sua e o outro está apenas sendo gentil.
Prática: Use a assertividade (conforme Del Prette). Em vez de "Você pode me ajudar com a louça?", utilize: "A organização da cozinha é uma tarefa da casa. Hoje a sua parte é lavar e a minha é guardar".
2. Delegue a Carga Mental, não apenas a Execução
A carga mental é o gerenciamento (saber que o sabão está acabando, que o filho tem médico, que a conta vence amanhã).
Prática: Delegue fatias inteiras de responsabilidade. Se o parceiro ou outro membro da família fica com as compras, ele deve gerenciar a lista, os preços e a execução, sem que você precise "lembrá-lo".
3. O Exercício do "Não-Cuidado"
Separe um tempo onde você não está disponível para ninguém.
Prática: Escolha uma atividade onde você seja o sujeito do desejo, e não o objeto de cuidado. Pode ser um hobby, estudo ou apenas silêncio. A resistência à culpa inicial é a parte mais importante do tratamento.
Resumo para Aplicabilidade Clínica
| Conceito | Manifestação na Vida Real | Ação Necessária |
| Dispositivo Amoroso | "Sinto que ninguém faz nada se eu não mandar." | Treinar a tolerância ao "erro" alheio e ao ócio. |
| Carga Mental | Exaustão mental mesmo sem esforço físico. | Divisão real de gestão das tarefas. |
| Identidade de Cuidadora | Dificuldade em dizer "não" para pedidos da família. | Praticar Habilidades Sociais Assertivas. |
Conclusão: Você não é uma Supermulher
A ideia da "Supermulher" é uma estratégia para manter você sobrecarregada sem reclamar. Reconhecer que o cuidado deve ser dividido é um ato de saúde mental e de justiça.
Você se reconheceu nesse ciclo de cuidado infinito? Na Clínica Ame-se, trabalhamos para que você recupere sua autonomia e saúde mental. Agende sua consulta e comece a cuidar de quem mais importa: você.

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