Vivemos em uma cultura que exige uma prontidão ininterrupta. A pressão por uma "funcionalidade constante" no trabalho e na vida privada dialoga diretamente com os estudos de Carla Antloga, que identifica essa sobrecarga — muitas vezes atravessada por questões de gênero — como um fator crucial no processo de adoecimento mental. Para muitas mulheres e pessoas neurodivergentes, essa cobrança de "dar conta de tudo" sem demonstrar vulnerabilidade é o que sustenta o sofrimento ético-político no cotidiano.
No caso do público autista, esse cenário é intensificado pelo masking. O esforço para sustentar essa funcionalidade exige uma carga cognitiva altíssima, muitas vezes ignorando os sinais vitais do corpo e da mente.
A Automonitoria: O Elo entre o Sentir e o Agir
Para navegar melhor socialmente, não precisamos "parar de sentir", mas sim desenvolver a automonitoria. Diferente do autoconhecimento genérico, a automonitoria é uma habilidade cognitiva-emocional que nos permite observar, descrever e avaliar nossos próprios estados internos e comportamentos em contextos sociais.
É através dessa habilidade que conseguimos identificar o que cada emoção está tentando nos comunicar, antes que ela se transforme em um comportamento disfuncional ou em uma crise.
As Emoções como Sinais de Alerta
Entender a função das emoções ajuda a calibrar nossa automonitoria. Vamos analisar três sinais essenciais:
1. A Raiva (Sinal de Limite)
A raiva é uma sentinela. Ela surge quando sentimos que um limite foi ultrapassado ou que uma injustiça ocorreu. Sob a ótica de Antloga, essa raiva muitas vezes é fruto de relações de trabalho ou domésticas desequilibradas. A automonitoria nos ajuda a perceber a raiva e transformá-la em uma habilidade social de assertividade, protegendo nossa integridade sem explodir.
2. A Tristeza (Sinal de Processamento)
A tristeza sinaliza a necessidade de recolhimento para processar uma perda ou um encerramento. Negar esse tempo de pausa em nome da "funcionalidade" é o que leva à exaustão crônica.
3. O Medo (Sinal de Proteção)
O medo é um mecanismo de preservação. Ele pede cautela. Quando exercitamos a automonitoria, conseguimos distinguir o medo que nos protege de riscos reais do medo que nos paralisa por excesso de estímulos ou pressão social.
O Papel da Terapia
O objetivo da psicoterapia não é transformar você em um robô produtivo, mas oferecer espaço para que a automonitoria floresça. Aprender a ler seus próprios sinais é o que permite navegar nas interações sociais com menos desgaste e mais autenticidade.

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