Estresse ou Violência? Por que precisamos parar de "passar pano" para a agressividade



Muitas vezes, no consultório e na vida cotidiana, ouvimos justificativas que tentam transformar atos de violência em simples "momentos de estresse". Frases como "ele estava sob muita pressão no trabalho" ou "foi só uma explosão na hora da raiva" funcionam como cortinas de fumaça que escondem uma realidade mais profunda: a seletividade da violência.

Como psicóloga na Clínica Ame-se, vejo o quanto essa confusão conceitual adoece mulheres e sobrecarrega o sistema de saúde mental. Precisamos ser diretos: o estresse explica o cansaço, mas não justifica a humilhação.

O Estresse é Biológico, a Violência é Cultural

O estresse é uma resposta fisiológica do organismo a situações de ameaça ou sobrecarga. Ele se manifesta através de sintomas claros, como:

  • Insônia e fadiga crônica;

  • Tensão muscular e dores de cabeça;

  • Problemas de pele e tremores.

Embora o estresse possa reduzir nossa tolerância e nos deixar mais impacientes, ele não possui o poder de "criar" o machismo ou a necessidade de dominar o outro. Se uma pessoa está estressada e escolhe descarregar sua frustração em quem considera "inferior" ou "propriedade" (como a parceira), enquanto mantém a calma diante de figuras de autoridade (como o chefe), estamos diante de uma escolha de alvo, e não de um sintoma médico.

A Perspectiva de Gênero: O "Pano" que a Família Passa

De acordo com as pesquisas de Valeska Zanello, as mulheres são socialmente educadas dentro de um "dispositivo amoroso", onde o cuidado com o outro é colocado acima da própria segurança. Isso cria um terreno fértil para que a família e a sociedade "passem pano" para comportamentos abusivos, tratando o homem como alguém que "perdeu a cabeça" e a mulher como a responsável por manter a paz no lar.

Interseccionalidade e o Silenciamento

Não podemos ignorar que esse "pano" tem cores e pesos diferentes. Para mulheres negras, a pressão para não denunciar ou não romper relacionamentos pode ser ainda maior, muitas vezes sob o argumento da preservação da unidade familiar frente ao racismo externo. Como aponta Carla Akotirene, a interseccionalidade nos obriga a entender que a violência de gênero não atinge a todas da mesma forma, e as redes de apoio precisam estar atentas a essas especificidades sem usar a cultura ou a religião como desculpa para o abuso.

Habilidades Sociais e Responsabilização

Trabalhar as habilidades sociais, conforme os estudos de Zilda e Almir Del Prette, envolve aprender a expressar sentimentos e resolver conflitos de forma assertiva. Um déficit nessas habilidades pode levar à agressividade, mas a solução não é a complacência.

A mudança real não vem apenas com o descanso ou com o fim de uma fase estressante no trabalho. Ela vem através da:

  1. Responsabilização: O agressor deve entender que sua conduta é uma escolha de poder, conforme os estudos de Adriano Beiras.

  2. Reflexão de Gênero: Desconstruir a ideia de que a parceira é um "saco de pancadas" emocional.

  3. Educação Emocional: Substituir a agressão por estratégias de comunicação funcional.

Você Não é o Amortecedor do Outro

Se você se sente constantemente "pisando em ovos" para evitar uma explosão alheia, saiba que sua saúde mental e segurança são prioridades absolutas. O estresse de ninguém justifica o seu adoecimento.

A psicoterapia é um espaço fundamental para identificar esses ciclos, fortalecer a autonomia e traçar limites claros. Se você se identificou com essa situação, não precisa carregar esse peso sozinha.

Onde buscar ajuda?

Se você se identificou com os sinais discutidos neste texto, o caminho para a mudança depende de qual lado da relação você ocupa. O silêncio e a desculpa do "estresse" só permitem que o ciclo de violência se perpetue.

Para você, mulher, que se sente sobrecarregada

Você não precisa ser o amortecedor emocional de ninguém. Se você vive "pisando em ovos" e sente que sua saúde mental está se esvaindo para manter uma paz que não existe, a psicoterapia é o seu espaço de fortalecimento. Aqui, trabalhamos para que você recupere sua autonomia, identifique as armadilhas do dispositivo amoroso e estabeleça limites inegociáveis para sua segurança.

Para você, homem, que usa o estresse como justificativa

Se você percebe que "perde a cabeça" apenas com quem está em uma posição de vulnerabilidade em relação a você, é hora de assumir a responsabilidade. O estresse é real, mas a agressão é uma escolha de poder. Na Clínica Ame-se, oferecemos um espaço de reflexão clínica para homens que desejam desconstruir masculinidades tóxicas, desenvolver habilidades sociais de enfrentamento e aprender a lidar com conflitos sem o uso da violência. A mudança de comportamento começa com o reconhecimento do dano causado.

Não espere o "momento de estresse" passar para cuidar do que é urgente. Seja para retomar sua vida ou para transformar sua forma de se relacionar, a psicoterapia pode ajudar. Agende sua consulta.

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