O Carnaval é, historicamente, um período de celebração, liberdade e expressão da cultura brasileira. No entanto, sob o confete e a música, muitas vezes se esconde uma realidade amarga: a naturalização de comportamentos invasivos. Precisamos ser diretos: a folia não suspende os direitos fundamentais, nem autoriza o desrespeito. Homens, este convite à reflexão é, prioritariamente, para vocês.
O Dispositivo da Eficácia e a Validação Masculina
Para compreendermos por que o assédio ainda é tão presente, precisamos olhar para as raízes da nossa socialização. A pesquisadora Valeska Zanello nos ensina que, enquanto mulheres são frequentemente capturadas pelo "dispositivo do amor" (a pressão para serem sempre gentis e disponíveis), muitos homens operam no "dispositivo da eficácia".
Nessa lógica, a "conquista" e o comportamento viril funcionam como uma prova de valor perante o grupo de pares. O problema é que, quando a validação de um homem depende da sua capacidade de "vencer" a resistência de uma mulher, o consentimento torna-se um mero detalhe, e o desrespeito vira troféu. A verdadeira eficácia masculina, entretanto, reside na capacidade de reconhecer limites e exercer a autonomia com responsabilidade.
Rompendo o Pacto de Silêncio entre Homens
A mudança real nas festas de rua não depende apenas de leis, mas de uma transformação na cultura dos grupos masculinos. Como apontam Adriano Beiras e Daniel Fadel, é urgente romper o "pacto de silêncio".
Quantas vezes você presenciou um amigo sendo inconveniente, puxando o braço de alguém ou ignorando um "não", e preferiu calar-se para não ser o "chato" do grupo? O silêncio, nesse contexto, é uma forma de validação. Ser um aliado na prevenção à violência envolve ter a coragem de confrontar essas "brincadeiras" abusivas e sinalizar que aquele comportamento não é aceitável.
Interseccionalidade: O Respeito não pode ser Seletivo
Não podemos falar de segurança no Carnaval sem considerar a interseccionalidade, conceito fundamental trazido por intelectuais como Carla Akotirene. A violência de gênero atinge de formas distintas mulheres negras, brancas e indígenas.
As mulheres negras e indígenas, por exemplo, enfrentam camadas extras de violência devido à hipersexualização histórica de seus corpos. O respeito não pode ser seletivo ou baseado em padrões de classe e cor; ele deve ser universal e incondicional.
Do Treino de Substituição de Agressão à Responsabilização
A frustração de receber um "não" faz parte da vida social. No entanto, a forma como se lida com esse "não" define o caráter de um homem. O Treino de Substituição de Agressão (ART), proposto por Arnold P. Goldstein, nos mostra que é possível substituir a reação agressiva pela reflexão e pelo autocontrole.
Aprender a ler o "não" invisível — aquele que vem no desvio do olhar, no corpo que se retrai ou na falta de entusiasmo — é uma habilidade social. Como reforça Sheila Murta, prevenir a violência requer o desenvolvimento dessas competências e, acima de tudo, a coragem de se responsabilizar pelas próprias ações, indo além da simples punição e buscando uma mudança genuína de comportamento.
Conclusão
O Carnaval só é verdadeiramente bom quando é seguro para todas as pessoas. O respeito é a única fantasia que não pode faltar em nenhum bloco ou avenida. Que possamos usar este período não apenas para a festa, mas para praticar uma masculinidade que acolha a diversidade e honre a integridade do outro.
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